O inimigo não é o vírus

Clara Barzaghi

13/04/2020

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Já levava mais de uma semana isolada quando me dei conta de que meu orientador de mestrado e minha analista estão no grupo de risco e pela primeira vez desde que começou a quarentena temi pela morte de alguém que me diga respeito. Eu saio para passear com o cachorro e no domingo um mendigo me pediu em namoro; talvez seja a primeira vez que entendo que vou morrer sozinha. Do fundo do meu ser ateu, surge uma soterrada culpa cristã que me jura de pés juntos que não há salvação para mim e muito em breve todos os meus anos de esbórnia serão pagos com a morte solitária na minha quitinete na praça da República, no centro de São Paulo. É isso: eu vou morrer e vou morrer temendo pela vida dos meus.

 

Eu saio para passear com o cachorro e conheci um morador de rua que veio lá de Goiás e por ser portador do HIV o pessoal do albergue recomendou que ele ficasse na rua, porque em tempos de coronavírus é mais seguro do que dormir amontoado com 250 pessoas. Ou talvez eles enxotem aqueles que consideram ter mais chances de morrer, esse pessoal que empacota na rua acaba nem entrando para as estatísticas. Penso mais nos 30 mil moradores de rua da cidade de São Paulo do que na minha avó, 7 mil deles têm mais de 50 anos. E a Cracolândia tem sido uma pedra no sapato das gestões municipais há tanto tempo que deve ter gente dando glória aos céus por esse vírus acelerar o serviço que a polícia tem feito. Porque enquanto alguns se dão conta de que são mortais, outros foram e seguem sendo mais do que deixados à mercê do destino, pois são de antemão considerados executáveis – como aqueles 6 mil que a polícia brasileira mata anualmente e que podem ser qualquer um que se julgue um potencial “criminoso”, qualquer um “com cara de bandido ou vagabundo”.

 

Estamos em quarentena. Ao longo dos dias medidas das prefeituras e governos de estados oficializam a paralisação de escolas, a suspensão de atividades de alguns funcionários públicos, o estado de emergência, o estado de calamidade pública; o governo federal diz que não declarará estado de sítio, mais um pedido de impeachment é protocolado, jogos políticos. Os casos já passaram de 4 mil, especialistas alertam: o Brasil está parecendo a Itália, onde a coisa tá feia... Veja bem, essa mania de eurocentrismo ainda acaba nos pondo em maus lençóis; aqui é o que se chamou terceiro mundo, colônia fundada pelo etnocídio e pela escravidão, que ainda regem a sociabilidade nesse país tropical devastado em nome de Deus, pela glória da pica e em função do Capital. Aqui é a periferia do mundo erigido por essa humanidade que você agora tenta salvar;

 

A tão clamada solidariedade se estende aos nossos pares e via de regra não passa da portaria dos nossos prédios. Como seria possível a quarentena total em um país onde as pessoas não conseguem entrar em casa porque não têm as chaves de seus prédios e dependem da presença de seus porteiros, mesmo nas condições mais sombrias como a morte anunciada pelo contágio generalizado?

 

O medo da morte aproxima as pessoas em seu distanciamento social. Ao longo dos dias, as janelas ecoaram“Fora Bolsonaro” e um ruidoso panelaço se espalhou pelo país. Quem bate panelas? As janelas dão passagem a gritos de indignação perante à declaração de que a economia não pode parar por conta de 5 ou 7 mil mortes; ela nunca parou, por que seria diferente agora? O extermínio de parcelas da população sempre fez parte dos planos de crescimento econômico desse aclamado país do futuro. Mas com a disseminação do coronavírus avançando em solo brasileiro, ao mesmo tempo que países vizinhos seguem a deixa da Europa e decretam estado de urgência, fecham fronteiras e assumem uma retórica de guerra contra o vírus, priorizar tão descaradamente a economia sobre a vida soa o mais inaceitável dos discursos. E é.

 

Olhando daqui, da virtualidade das minhas redes sociais digitais, composta majoritariamente por uma classe média branca, meio de esquerda, moradora do centro e da zona oeste de São Paulo, as reações ao presidente parecem vir, por um lado, do horror diante da constatação do genocídio em curso, conforme cada dia fica mais claro que não estamos falando de 5 ou 7 mil mortes. Por outro, parecem ser uma atualização de Outrem cujo mundo possível passam a explicar, legitimar e ocupar. Porque pela primeira vez na vida muita gente se identifica como parte daqueles que o Estado admite como descartáveis, esses que até então eram Outrem.

 

Outrem sempre é percebido como um outro, mas é, como conceito, uma estrutura no campo perceptivo, “ele é a condição de toda percepção, para os outros como para nós. É a condição sob a qual passamos de um mundo a outro”1. Outrem é a expressão de um mundo possível, e aqui dá passagem a um mundo de angústia, que até então estava fora da percepção desses que subitamente se veem como parte do que Mbembe aponta como “um tipo de ‘raça’ produzido pelo capitalismo da era neoliberal” e que vai além da cor da pele, origem ou aparência, englobando todos aqueles “que hoje formam uma humanidade excedente em relação à lógica econômica neoliberal”2.

 

Para o neoliberalismo e para o Estado, a sua avó é tão descartável quanto um craqueiro e é isso que lhe parece intolerável no discurso do presidente e seu super ministro Paulo Guedes. De supetão, seu mundo é invadido por um mundo no qual reconhecer as estratégias de subjugação da vida ao poder da morte faz parte da condição de ainda estar vivo.

 

Com a pandemia do coronavírus o modo como o poder de morte opera mudou e as fronteiras da necropolítica agora se expandiram até a porta da sua casa, mas não se engane: por todo o mundo os campos de morte, que são tão antigos quanto a história da civilização ocidental, continuam e continuarão existindo.

 

Aqui, bem antes do vírus, formas de exercício de poder e extermínio herdadas da ocupação colonial seguem operando, principalmente a partir da categoria de raça, e se manifestam na ocupação das cidades. Não é por acaso que para descrever a materialização do poder de morte em diferentes quebradas do território brasileiro seja possível emprestar de Fanon sua assombrosa imagem da cidade do colonizado: “[...] é um lugar mal afamado, povoado de homens mal afamados. Aí se nasce não importa onde, não importa como. Morre-se não importa onde, não importa de que. É um mundo sem intervalos, onde os homens estão uns sobre os outros, as casas umas sobre as outras”3.

 

Na cidade mais populosa da América Latina, não há nada de igualitário no contágio, pois a distribuição da necropolítica pelo corpo social é também espacial e o vírus pode se alastrar pelos becos de Paraisópolis ou da São Remo com velocidade impensável para os corredores das casas do Alto de Pinheiros. A doença se espalha pelas ruas da cidade, enquanto as regras do jogo seguem sendo ditadas por uma elite econômica ignorante e dissimulada que agora se isola em suas fazendas e casas de praia.

 

O que as declarações do presidente diante da Covid-19 escancaram é que o Estado e o capitalismo são assassinos. Essas declarações são também, para essa classe média das minhas redes, a constatação de um genocídio em potencial. Meu filho, o genocídio é a prática fundadora desse país! Há um genocídio em curso desde os primórdios da colonização desse território, o que o vírus tem feito é torná-lo incontestável.

 

 Me chamou a atenção durante o confinamento ver que, no clamor pelo impeachment e sua tradução em “Fora Bolsonaro”, as pessoas ao meu redor parecem conseguir dar uma saída para seu horror diante da certeza de que algum querido morrerá em breve. Frente a iminência da morte, a deposição imediata do presidente aparece como a única possibilidade de salvação. Claro que um processo desses é lento e com o vírus se espalhando a cada dia as únicas possibilidades reais seriam a renúncia ou um golpe de estado, sendo o primeiro improvável e o segundo indefensável. Por uma semana remoí esse assunto, acompanhando virtualmente pessoas em quarentena que levam suas vidas como nossos pais e em seu distanciamento social combatem o vírus inimigo, com a consciência mais leve porque os mortos não terão nada a ver com eles que foram a favor do impeachment. Possibilidade de salvação e garantia de absolvição. É evidente que toda medida deve ser tomada para evitar o avanço da contaminação, mas a catástrofe já aconteceu.

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Ao traduzirem Outrem em termos de seu caduco e virulento mundo, as pessoas ficam presas a uma estrutura de pensamento que ignora não só o ponto de vista do outro – o descartável que quase ninguém nota, a empregada que morre de coronavírus porque a patroa não a dispensou durante sua quarentena, o craqueiro que morre ninguém sabe onde, ninguém sabe como –, mas a possibilidade de que haja pontos de vista. Corre-se o risco de dizer que no Brasil a necropolítica é democrática e igualitária. Ou de virar cidadão-polícia“4 já que o Estado não cumpre seu papel”. Ou de começar a achar irrelevante o fato do vice-presidente ser um general, no país com o governo mais militarizado da América Latina, quando você está pedindo deposição imediata do presidente. Corre-se o risco de ficar dando voltas em palavras de ordem enquanto o vírus está causando uma mutação planetária e é necessário parar para pensar nas novas tecnologias de controle que estão se formando.

 

Enquanto a retórica de guerra ao vírus avança, o inimigo pode ser virtualmente qualquer um. Mas rapidamente surgem especialistas preocupados com a Cracolândia, uma delas já até ouviu dizer que o coronavírus chegou por ali, e se refere aos craqueiros como “vetores ambulantes”5 da doença. Com esse discurso, ela se identifica como um indivíduo imune, ao passo que todos esses outros são assumidos como contaminados. O medo generalizado, somado a tentativas de restaurar o mundo tal como o conhecíamos, pode facilmente encontrar saídas em discursos que legitimam que a violência do Estado recaia sobre aqueles que sempre a sofreram, talvez travestida de ajuda humanitária e sua solidariedade será bem vinda, você pode fazer sua parte doando uma bolada, ajudando a construir um centro de confinamento para mandar toda essa gente. Alimenta-se uma espécie de neurose fóbica que constrói o Outro como um objeto ameaçador que deve ser mantido do lado de fora. Assim, seguem sendo traçadas as fronteiras que definem quais vidas estamos dispostos a sacrificar.

 

Há uma guerra em curso e o inimigo nunca foi o vírus. A América Latina é a latrina onde jazem os povos indígenas e os condenados da terra. Se o cenário de horror que se desenha pode parecer insuportável, é porque ele coloca em xeque a existência da humanidade tal como a conhecemos. Um mês antes de começarmos o isolamento social, a cidade de São Paulo amanheceu alagada após uma chuva de 24 horas, e me lembrei de ter escutado em algum lugar Ailton Krenak dizendo que essa humanidade vai morrer soterrada sob seu vômito e sob seu lixo. Tentar salvar um mundo que já não existe mais não é apenas um caminho perigoso, é potencialmente mortal. Como nos lembra o próprio Krenak: “Talvez estejamos muito condicionados a uma ideia de ser humano e a um tipo de existência. Se a gente desestabilizar esse padrão, talvez a nossa mente sofra uma espécie de ruptura, como se caíssemos num abismo. Quem disse que a gente não pode cair?”6. É imperativo nunca mais voltar a dormir e acordar sem pensar que há um genocídio em curso nesse país há 520 anos.

 

Nota

1.  Gilles Deleuze e Félix Guattari. O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34, 2010, p.27.

2.  Achille Mbembe. O fardo da raça. São Paulo: n-1 edições, 2018, p.27.

3.  Frantz Fanon. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1968, p.29.

4.  Acácio Augusto. Guerra e pandemia: produção de um inimigo invisível contra a vida livre. Disponível em: <https://n-1edicoes.org/018>. Acesso em: 9 abr. 2020.

5.  Disponível em: <https://oglobo.globo.com/sociedade/cracolandia-de-sp-mantem-fluxo-especialistas-temem-contagio-total-entre-usuarios-24327678>. Acesso em: 9 abr. 2020.

6.  Ailton Krenak. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das letras, 2019, p.29.

n-1 https://n-1edicoes.org/023